Quando Foi A Última Vez Que Leste Um Livro?

Não há muito tempo, conheci um miúdo chamado Martim. Tinha 12 anos, cabelocastanho e olhos cor de avelã. Era alto para a sua idade, muito energético e não passava sem a tecnologia. Adorava jogar playstation e criar novos mundos nos quais se perdia, tardes sem fim. Quando era mais novo criava bandas desenhadas, mas esse tempo tinha acabado. Também gostava muito do Natal e de estar em família. Mas se as coisas não corressem como planeado, podia zangar-se. Era teimoso e fazia jus ao nome. Dizem que ‘Martim’ vem do deus romano Marte, deus da guerra, e ele não era menino de desistir sem dar luta.

Na véspera da consoada, Martim teve o azar de estragar o telemóvel. Ia tão
apressadamente tirar uma selfie ao lado da árvore de Natal, empoleirado num escadote para impressionar os amigos, que escorregou, quase derrubou a árvore e podia ter-se magoado a sério. O telemóvel caiu pela janela abaixo e deixou de funcionar. Martim começou a ver a vida a andar para trás. O que faria agora? Como comunicaria os presentes, em tempo real, aos amigos? Como enviaria felicitações e boas festas com emojis? O que faria enquanto os adultos falavam de coisas que não lhe interessavam? E quando todos os outros estivessem rodeados dos seus gadgets? E as selfies? Não… isto não era justo! “O Natal estava completamente arruinado”, pensou. Mas talvez esta fosse
a oportunidade, pela qual ansiava há muito… a altura ideal para receber um telemóvel novo!

Mandar era com ele e embora quisesse ser agricultor ou engenheiro, na família ninguém lhe negava a faceta de cozinheiro! Adorava preparar as farófias com leite-creme, colocar os fritos de natal – comprados na pastelaria, porque fazer dava muito trabalho – nos pratos grandes e redondos, ajudar a mãe a cortar as batatas, preparar os queijinhos, temperar o bacalhau e fazer a salada… Mas nesse dia Martim olhava o chão, cabisbaixo. Tinha perdido o brilho, que outrora reinava nos seus olhos. Ver o lado positivo, tirar partido da situação e avistar a hipótese de passar um Natal completamente diferente, era algo que nem sequer lhe passava pela cabeça! Na verdade, Martim estava longe de adivinhar que este episódio seria apenas o início de uma viagem para uma parte dele
que desconhecia por completo.

A notícia chegou, sem sobreaviso: este Natal iam acolher um refugiado na consoada. Era Samir, amigo da prima, moreno, de olhos claros, estatura média, simpático e gentil. Esperou tímida e pacientemente à porta da sala. Alguns membros da família ficaram surpreendidos, especialmente Martim. Se a falta do telemóvel já o deixava nervoso, uma presença inesperada, 10 anos mais velho que ele, fazia-o sentir-se inseguro, fora da sua zona de conforto. Mas não foi o único a reagir na defensiva: a avó alertava-os para as notícias de pessoas que vinham em barcos no mediterrâneo e que eram, afinal, gatunos; a tia desculpava-se por não ter avisado mais cedo que viria outro convidado,
lamentando-se por a filha nunca lhe dar satisfações da sua vida; o tio perguntava em tom de brincadeira se ele acreditava que teria muitas mulheres à sua espera no paraíso.

No decorrer da noite Samir foi-se integrando no ambiente familiar, transformando a opinião que tinham sobre ele. Exceto a de Martim, que continuava amuado, enfiado na sua carapaça de tartaruga. De vez em quando os cheiros abriam-lhe o apetite, acordava, ouvia algo que lhe interessava… mas depressa se fartava e voltava para o seu mundo. Qualquer coisa o irritava e chegou a ser indelicado e repreendido pelos pais. A avó apaparicava-o e tentava que pusesse a sua “carinha alegre”. A tia perguntava-lhe pela escola mas ele não respondia.

Enquanto isso, Samir ia conquistando a confiança da família. A tia decidiu meter
conversa com ele, acenando à filha em sinal de boa escolha. A mãe propôs jogos entre todos e a noite estava cada vez mais animada.

Na hora de trocar os presentes tudo mudou. Martim esperava receber um telemóvel novo, um jogo de Playstation ou uns auscultadores, no mínimo. A sua impaciência foi aumentando e qual não foi o seu espanto quando recebeu um livro, dado pela mãe, chamado “Histórias do Outro Mundo”. Olhou-o incrédulo, sem saber o que dizer. Não conseguiu raciocinar, nem sequer agradecer. Furioso, atirou o livro na direção a Samir dizendo “Fica tu com ele! Talvez te faça mais falta do que a mim, já que estás habituado a viver com pouco e agora és o centro das atenções!”

Fez-se um silêncio sepulcral, constrangedor. Martim sabia que a partir daquele
momento nada seria igual. A única reação que lhe ocorreu foi bater a porta com força e sair.

Passou um bom bocado na rua, apreensivo. Sentia-se perdido e estava frio… Sentado à porta de casa conseguia observar as outras famílias, através das janelas iluminadas. Lá dentro as pessoas brincavam, abraçavam-se, riam-se. Noutra janela jogavam às cartas. Noutra ainda parecia não haver ninguém. Observou com mais atenção: havia seis pessoas sentadas agarradas aos telemóveis, com a televisão ligada. Mas… pareciam estátuas. “Que estranho”, pensou. Nesse momento sentiu alguém tocar-lhe no ombro. Talvez fosse a mãe.

Olhou para trás e viu Samir, com o livro na mão. Perguntou se podia sentar-se e colocou o livro no espaço entre eles. Olhou-o com ternura e disse “Martim, este livro pertence-te. Foi-te dado com carinho. E devias recebê-lo e agradecê-lo de igual forma. Quando foi a última vez que leste um livro?”. Fez uma pausa. “Sempre ouvi dizer que não se deve julgar um livro pela capa. É o interior que conta e pode revelar-se uma bela surpresa. Um livro é assim. Uma longa viagem, que só quem se atreve a ler tem a oportunidade de descobrir.” Parou por breves instantes e continuou. “Tu não sabes como era a vida no meu país. Eu fugi, mas tinha uma vida antes disso. A minha cidade era linda… Se um dia quiseres conto-te. Agora volta para dentro.”

Estupefacto, mas sereno, Martim fitou-o olhos nos olhos e balbuciou “Descul…pa”. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Sentia-se vulnerável, envergonhado e arrependido. Samir abraçou-o e esboçou um sorriso: trouxera ao de cima o pior e o melhor daquele miúdo. Permaneceram assim por alguns instantes. Martim limpou as lágrimas e disse “Anda, quero que me contes a tua história”.

Nessa noite, aprenderam-se muitas coisas. E, naturalmente, o mundo real sobrepôs-se ao virtual. Trocaram-se afetos, abraços e ideias. Partilharam-se lendas e tradições. E a barreira do preconceito esbateu-se. A Síria, a Palestina e a Eritreia deixaram de ser áreas invisíveis no mapa e passaram a ocupar um lugar no coração daquela família, para quem um refugiado já não era um estranho. Martim foi buscar as bandas desenhadas, há muito esquecidas, para mostrar ao amigo – que, em troca, lhe explicou origem do seu nome: “Samir pode ter dois significados. Em árabe representa uma pessoa eloquente, com espírito comunitário, boa companhia. Em sânscrito, vento ou brisa suave.” Samir sugeriu-lhe que abrisse o livro ao acaso e lesse uma passagem. Martim não pôde deixar de reparar nas anotações da mãe, à margem do livro, nas páginas amareladas e num cheiro que o transportava para outro lugar. Um presente assim não tinha preço. Nesse momento compreendeu o valor daquele livro, descobrindo a verdadeira essência do Natal: a partilha. O livro passou de mão em mão, cada pessoa leu um excerto e finalizaram com uma reflexão coletiva. Nascia assim, um ritual que marcaria os próximos Natais e as suas memórias, para sempre.

Texto da Joana Soares (joana.c.soares@hotmail.com)

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