De uma fronteira para a outra

 

Os movimentos migratórios são parte da história da Humanidade, acentuando-se em períodos  de instabilidade, conflitos, e guerras. Na última década, no entanto, tem-se observado um  número crescente de pessoas que procuram melhores condições de vida, oportunidades de  emprego, e segurança em países terceiros. 

 

Tabela 1. Número de migrantes por ano (2000-2023) 

As burocracias necessárias para que seja concedida proteção aos migrantes, permitida e  facilitada a fixação desses no país para onde se deslocam, são, a maioria das vezes, lentas e  complexas. Assim, e não podendo continuar no país de origem, os migrantes veem-se forçados  a emigrar ilegalmente, sujeitando-se a travessias perigosas e, alguma vezes, mortíferas,  destacando-se, entre essas, a que estabelece a ligação entre o México e a fronteira com os  Estados Unidos. 

 

A crescente violência derivada dos regimes autoritários, e as precárias condições de vida de  países como a Venezuela, Cuba e Guatemala, têm levado milhares de migrantes a percorrem  milhares de quilómetros, muitas vezes a pé e/ou em comboios de carga, até chegarem ao limite  fronteiriço mexicano. 

Tabela 2. Número de migrantes de cada país de origem, e total por região (2023)

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que tenham morrido 686 pessoas  na região da fronteira do México com os Estados Unidos, e as autoridades americanas admitem  que cerca de 500 pessoas tenham sido deportadas sem os seus filhos – tendo estes ficado à 

responsabilidade do Estado norte-americano em centros de detenção, em condições  desumanas, e sem poderem contactar diariamente com os seus familiares. 

Durante décadas, o investimento na segurança fronteiriça americana tem visado não a receção  de migrantes que procuram com a entrada em território americano a conceção de asilo, mas a  proibição dessa travessia. A mais recente estratégia do governo americano para o controlo (e combate) à migração ilegal através da fronteira com o México, traduz-se na criação de  procedimentos legais adaptados a cada caso, considerando-se a nacionalidade e as  circunstâncias vividas nos países de origem dos migrantes.  

A par das novas políticas burocráticas, os EUA estabeleceram acordos com o México para  procederem ao reenvio de migrantes não-mexicanos – o que pode ser contrário às obrigações  internacionais e humanitárias a que os países estão vinculados, quando esse reenvio tenha  implicações ao nível da integridade e/ou vida dos migrantes – e ao controlo das rotas de tráfico  humano, que se confundem com as rotas migratórias em território centro-americano e facilitam  a entrada de indivíduos relacionados com essas em território americano. 

Resumir tudo o que se possui numa mochila, caminhar durante semanas, sem acesso a  condições de higiene, comida e um local para dormir, arriscando a vida na incerteza do que se  vai encontrar, não é um ato de loucura ou crença fictícia de que será fácil, acessível e imediato alcançar tudo aquilo que não era possível viver no país de origem. 

 

Só o desespero e uma esperança sem medida em ter uma vida condigna a milhares de  quilómetros de casa levarão alguém a passar pelo que estes, e todos os outros, migrantes se  dispõem a passar. E só o reconhecimento empático dessas circunstâncias tanto por parte dos  líderes estaduais, como dos próprios cocidadãos, poderá levar à criação de políticas que  salvaguardem simultaneamente os direitos humanos dos migrantes, e a ajuda humanitária enquanto uma responsabilidade de todos – seja ao nível da receção e acolhimento em território  nacional, seja na adoção de comportamentos e narrativas não discriminatórias no dia-a-dia. 

Tabela 3. Número de migrantes oriundos da América Latina que entraram nos EUA (2023)

Mais informação sobre o tema:

 

The U.S.-Mexico Border Problem Will Not Be “Solved” Until All Parts of the Border Enforcement  System Are Properly Resourced: https://www.migrationpolicy.org/news/border-supplemental spending-bill?eType=EmailBlastContent&eId=bdaba4e2-1c12-4bdc-8e33-93d60a9a5cd1 

Sobre as condições em que as crianças são mantidas nos centros de detenção americanos, ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57245499 

Sobre a crise migratória na Venezuela, ver: https://www.iom.int/venezuelan-refugee-and migrant-crisis

Websites consultados: 

Dados estatísticos (2023): https://www.unhcr.org/refugee-statistics/insights/forcibly displaced-and-stateless-persons/visualisation-americas.html?situation=1&YE=2023&ER=33 

UN Agency: US-Mexico Border Is World’s Deadliest Land Crossing for Migrants (Outubro 2023): https://www.voanews.com/a/iom-us-mexico-border-the-deadliest-land-crossing-in-the world-/7297145.html 

 

 

Sobre mim: 

Chamo-me Inês, tenho 22 anos, e estou a licenciar-me em Relações Internacionais. Interesso-me pelos direitos humanos e ambientais, e acredito que conhecer as histórias de cada um  sejam as formas mais autênticas para conhecer o mundo que existe para lá das nossas bolhas.

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