O Silêncio Humanitário em Gaza

As infraestruturas 

Eis uma das várias previsões publicadas recentemente sobre o conflito em Gaza: num cenário de cessar-fogo total e imediato, em que nem mais uma bala é disparada, morreriam ainda mais 11.580 pessoas nos seis meses seguintes devido à guerra. Este estudo da John Hopkins University Center dá conta das “mortes por excesso”, ou seja, aquelas relacionadas de forma direta ou indireta com o conflito que não aconteceriam num cenário comparável em que Israel nunca tivesse levado a cabo o seu contra-ataque. Estas 11.580 pessoas não são apenas vítimas diretas da ofensiva militar, mas principalmente da destruição de infraestruturas palestinianas, especificamente hospitais, e do estado de extrema fragilidade da população local devido à falta de acesso a água potável e alimentos. Nos outros dois cenários considerados, o de continuação do status quo bélico e o da escalada de conflito, o número de mortes por excesso dispara para 66,720 e 85,750, respetivamente. 

Os mais de quatrocentos ataques a infraestruturas de saúde são justificados por Israel alegando que estas estariam a ser utilizadas pelo Hamas, sem que sejam apresentadas investigações independentes ou provas conclusivas que apoiem esta posição. Apenas 12 dos 36 hospitais de Gaza estão em funcionamento (e apenas parcialmente), num contexto que a ONU considera ser de “guerra contra o sistema de saúde”. Os bombardeamentos no Sul já destruíram metade da infraestrutura total e as instalações de saúde em Rafah, onde a maioria da população está agora encurralada, funcionam a 300% da sua capacidade. 

A ajuda humanitária existente 

O apoio internacional a Gaza é essencial à sua população, especificamente via UNRWA, o ramo das Nações Unidas formado em 1950 para atenuar a situação humanitária na região e que funciona como espinha dorsal desse esforço logístico. Em 2022 já cerca de 80% da população de Gaza dependia de ajuda humanitária. Hoje toda a população se encontra nessa situação: a “fome extrema” é generalizada e mais de um milhão de pessoas vive em “risco catastrófico de insegurança alimentar” (Oxfam Intermón). Além de colmatar as necessidades básicas da população palestiniana (seja de Gaza, Cisjordânia ou da diáspora alojada em países vizinhos), a UNRWA gere escolas, serviços de saúde e sociais, assim como o sistema sanitário da faixa.

Atualmente a ajuda humanitária chega a Gaza por várias rotas. Por via aérea, os Estados Unidos, Jordânia, Egito, França, Países Baixo e Bélgica têm operações de entrega de paletes humanitárias. Estas são, no entanto, consideradas insuficientes e acarretam problemas de segurança (como ficou visível no passado dia 8 de março, quando o paraquedas de uma delas não abriu, matando cinco pessoas e ferindo outras dez), sendo esta via considerada opção de último recurso apenas. Por via marítima, a Espanha juntou forças com a ONG americana World Kitchen e conseguiram finalmente levar a cabo a primeira entrega no passado dia 15 de março, depois de meses a construir um cais na costa da faixa. Todo este trabalho culminou numa entrega de 200 toneladas de ajuda, que correspondem a apenas 12 camiões (em condições normais, entrariam 500 camiões todos os dias em Gaza). 

A via terrestre é por isso vista de forma geral pelas associações humanitárias como a mais rápida e eficaz. No entanto, segundo o World Food Program (WFP), apenas cerca de 10% da ajuda necessária está a entrar em Gaza desde outubro. A retirada de cena da polícia palestiniana, depois de um ataque israelita em que morreram seis polícias e após meses de acusações israelitas constantes de que seriam cúmplices do Hamas, causou um colapso da ordem pública. O exército israelita ficou por isso com o ónus de assegurar a segurança das caravanas, enquanto cria resistência ao regresso da polícia local, visto pelas organizações humanitárias como essencial para resumir o fluxo de ajuda. O norte de Gaza, zona delimitada e controlada pelo IDF (Israel Defence Force – o exército israelita) onde estão encurraladas 300 mil pessoas, é especialmente vulnerável: em fevereiro o WFP teve mesmo de suspender as entregas de comida nessa zona por considerar que não existiam condições de segurança. 

Israel e a UNRWA 

As ONG’s que operam no terreno são claras: as dificuldades em fazer chegar o apoio necessário prendem-se principalmente com fatores controlados pelo IDF, especificamente no apoio em questões de segurança. 

Desde o início deste ano metade das missões da UNRWA foram rejeitadas pelas autoridades israelitas, alegando (novamente, sem fundamentar) que a agência tem ligações ao Hamas e que está profundamente corrompida, constituindo uma ameaça à segurança do estado de Israel. Em causa estão equipamentos passíveis de ser utilizados para fins militares. Nos postos de controlo à entrada de Gaza são retidas garrafas de oxigénio, geradores e quase todos os equipamentos a energia solar (essenciais num território em que o sistema energético central colapsou), assim como tendas e kits médicos com bisturis. Quando algum tipo de material é confiscado de um camião, toda a sua restante carga é devolvida para que seja novamente embalada antes de voltar a tentar entrar na faixa. 

Como consequência destas acusações, já vários países decidiram retirar o seu apoio à UNRWA, que em fevereiro viu o seu budget reduzido para menos de metade dos 880 milhões de dólares com que a organização contava. Entre esses países estão o Reino Unido, a Alemanha e os Estados Unidos, assim como a União Europeia, que consideraram esta suspensão necessária até que seja concluída uma investigação independente encomendada por António Guterres. O primeiro relatório da investigação concluiu que a organização tinha mecanismos próprios para garantir a sua neutralidade, ainda que estes contenham deficiências que devem ser reconhecidas, e adiava a publicação de um relatório final que incluísse recomendações futuras para 20 de abril. Entretanto estes países mantém a suspensão (exceto a Austrália), sendo que os Estados Unidos a estenderam mesmo até março de 2025. 

Ramadão 

O mês mais relevante do calendário religioso islâmico começou dia 10 de março. Neste período, muçulmanos do mundo inteiro praticam abstinência de várias maneiras, com o objetivo de valorizar aquilo que é dado por garantido durante o ano. É um exercício de contenção e de expectativa. É uma altura de profunda imersão religiosa e de purificação espiritual, mas também de fortalecimento de laços comunitários e familiares, de reajuste de prioridades e de envolvimento em ações de solidariedade. Em Gaza, chegar atrasado ao trabalho poderia ser excecionalmente aceitável e algumas lojas podiam fechar mais cedo de forma a facilitar o convívio que acompanha o quebrar do jejum. 

No entanto, num contexto em que o quotidiano já é exclusivamente regido pela carência e sem garantias de que o sofrimento acabe, este propósito é distorcido pela violência da realidade. A solidariedade não é uma escolha, é uma necessidade; o estreitamento dos laços sociais tem como cenário a luta comum pela sobrevivência; a contenção é inevitável, a expectativa quase impossível; fome e sede não podem ser voluntárias se são presença constante. 

No passado dia 25 de março, depois de seis meses de impasse, uma resolução das Nações Unidas exigiu um cessar-fogo imediato durante o Ramadão. Esta resolução não é, contudo, vinculativa e não se espera que tenha qualquer impacto num futuro próximo para os palestinianos. Menos de uma semana depois, Israel submeteu na ONU uma proposta formal para o desmantelamento da UNRWA, uma decisão política cujas consequências podem dificultar ainda mais os esforços humanitários. O fim do Ramadão é já terminou – em Gaza, a fome continua. 

Artigo escrito pelo voluntário Francisco Ramirez Pereira.

Francisco Ramirez Pereira nasceu em Oeiras, mas cresceu em Benavente. Estudou ciências, mas mudou de área e está agora em História. Interessa-se ainda por literatura e música. 

Referências: 

https://www.rescue.org/eu/article/collapse-gazas-health-system 

https://www.theguardian.com/world/2024/feb/25/uns-palestinian-aid-agency-at-breaking-point-after-450m-budget-shortfall 

https://www.reuters.com/world/middle-east/israeli-offensive-gazas-rafahmust-not-be-allowed-happen-un-says-2024-03-08/

https://www.newyorker.com/news/q-and-a/the-humanitarian-catastrophe-i n-gaza-can-only-get-worse 

https://www.aljazeera.com/opinions/2024/2/14/israels-unrelenting-war-on-gaza-healthcare-requires-urgent-action 

https://www.newyorker.com/news/essay/fasting-for-ramadan-while-gaza goes-hungry 

https://www.ft.com/content/0cdf345a-0966-4be0-9d90-17ca38aa512f https://www.bbc.com/news/world-middle-east-68551965 

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-68478831 

https://english.elpais.com/international/2024-03-16/the-open-arms-ship-arrives-in-gaza-to-carry-out-the-first-delivery-of-humanitarian-aid-by-sea.html# 

https://english.elpais.com/international/2024-02-22/generators-flashlights-and-urinals-the-gaza-aid-blocked-by-israel-on-the-grounds-that-it-must-not-rea ch-hamas.html 

https://www.timesofisrael.com/un-finds-unrwa-has-mechanisms-ensuringneutrality-critical-areas-require-action/ 

https://press.un.org/en/2024/sc15641.doc.htm 

https://www.iris-france.org/185124-gaza-a-humanitarian-emergency/ 

https://www.rtve.es/noticias/20240404/norte-gaza-muerte-hambre-oxfam-intermon-245-calorias-dia/16044206.shtml

https://gaza-projections.org/ 

https://www.ipcinfo.org/fileadmin/user_upload/ipcinfo/docs/IPC_Gaza_Acute_Food_Insecurity_Nov2023_Feb2024.pdf

Imagem de capa: mmansour via Flickr.

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