Crise no Sudão: Um grito silenciado de raparigas e meninas

Foto: UNICEF

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O Sudão já passou por várias guerras civis ao longo da sua história, mas as mais marcantes foram a Primeira e a Segunda Guerra Civil, além do conflito mais recente, iniciado em 2023. A Primeira Guerra Civil decorreu entre 1955 e 1972. Em 1956, o Sudão conquistou a sua independência do domínio britânico-egípcio. O sul do país era maioritariamente habitado por cristãos e animistas, que temiam ser marginalizados pelo norte, onde o governo era dominado por árabes muçulmanos. Em resposta, em 1955, surgiu no sul um movimento rebelde liderado pelo grupo Anyanya, que combateu a região norte. Os rebeldes reivindicavam maior autonomia e autogoverno, e, após anos de conflito e sofrimento, a guerra terminou com o Acordo de Adis Abeba, que concedeu ao sul um certo grau de autonomia regional. No entanto, as tensões permaneceram, uma vez que o norte continuava a exercer o seu domínio sobre a política e outras esferas do poder, o que acabou por desencadear uma nova guerra civil entre 1983 e 2005.

Em 1983, o presidente Jaafar Nimeiry revogou o Acordo de Paz de Adis Abeba e impôs a lei islâmica (Sharia) em todo o país. Como consequência, o sul, de maioria cristã e animista, perdeu os seus direitos de autogoverno, levando à criação do Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA), sob a liderança de John Garang. Após anos de negociações, foi finalmente assinado, em 2005, o Acordo de Paz Abrangente (CPA), que concedia ao sul um período de autonomia de seis anos, ao fim do qual teria lugar um referendo para decidir a sua independência. Como resultado, em 2011, o Sudão do Sul tornou-se um país independente.

Durante a guerra entre o Norte (Cartum) e o Sul, um novo conflito eclodiu na região de Darfur, no oeste do Sudão, contra o governo sudanês sediado em Cartum em 2003. As razões, no entanto, eram diferentes das que motivavam a guerra no Sul. Enquanto o Sul lutava pela autonomia e pelo autogoverno, Darfur revoltou-se contra a marginalização económica e política imposta pelo governo dominado pelos árabes. Embora Darfur fosse uma região maioritariamente muçulmana, tal como o Norte, a sua população pertencia a grupos étnicos africanos não árabes, como os Fur, Zaghawa e Masalit, que se sentiam discriminados e excluídos das decisões políticas e do acesso a recursos. Em resposta à insurgência, o governo sudanês armou milícias árabes conhecidas como Janjaweed, desencadeando massacres e uma campanha de limpeza étnica. Os ataques resultaram em cerca de 300.000 mortos, além de uma onda de violência sexual generalizada e do deslocamento forçado de mais de 2,5 milhões de pessoas. Face à brutalidade do conflito, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu
um mandado de captura contra o presidente sudanês Omar al-Bashir, acusando-o de genocídio
e crimes de guerra.

Em 2019, após meses de protestos, o ditador sudanês Omar al-Bashir foi deposto pelo líder das Forças Armadas Sudanesas (SAF), o general Burhan, e pelo líder das Forças de Apoio Rápido (RSF), o general Hemeti. Inicialmente, estes dois líderes pareciam cooperar, mas rapidamente começaram disputas pelo poder. SAF queria incorporar o grupo RSF no exército oficial, mas RSF recusou, pois Hemeti queria ter mais poder do que Burhan. Em determinado momento, ambos os líderes queriam governar o país individualmente, e os acordos para a sua unificação não tiveram sucesso. Em abril de 2023, as tensões escalaram para uma guerra total entre SAF (o exército do Sudão) e RSF (o grupo paramilitar). Os combates começaram em Cartum, mas espalharam-se para outras regiões, como Darfur. A guerra já matou e deslocou milhões de pessoas, e tem-se registado um aumento alarmante da violência sexual contra mulheres, especialmente em regiões como Cordofão do Sul e Darfur. As RSF e as milícias
aliadas foram identificadas como os principais perpetradores, cometendo atos como violações
em grupo, escravidão sexual e raptos.

Vários incidentes foram registados onde homens foram mortos ou gravemente feridos ao tentarem proteger as suas esposas, mães ou irmãs das agressões de FAR, muitas vezes forçados a assistir a tais atos hediondos. O estigma social já existente em relação a violações intensificou-se, levando a respostas desesperadas, incluindo casamentos forçados, muitas vezes com os próprios combatentes das FAR, e até ao suicídio das vítimas. Muitas famílias, antecipando os ataques, escondem mulheres e meninas juntamente com os seus bens mais valiosos, como carros, em florestas afastadas das zonas urbanas. Relatos indicam que, nas áreas ocupadas por FAR, os soldados invadem casas em busca de três itens principais: veículos, dinheiro e mulheres jovens, que são frequentemente raptadas e submetidas a escravidão sexual.

A UNICEF divulgou recentemente um relatório alarmante sobre os impactos da violência sexual na guerra civil do Sudão. O documento destaca casos de crianças vítimas de violações e agressões sexuais, algumas com apenas um ano de idade. Uma sobrevivente, identificada apenas como Omnia (nome falso), descreveu a sua experiência aterradora enquanto esteve detida por homens armados. Durante 19 dias, foi mantida num quarto com outras mulheres e meninas e testemunhou repetidos abusos:

“Depois das nove da noite, alguém abria a porta, segurava um chicote e escolhia uma das raparigas, levando-a para outra sala. Eu ouvia os seus gritos e choros. Eles estavam a violá-la.”

“Cada vez que as traziam de volta, elas vinham cobertas de sangue. Ainda eram crianças, muitas delas. Libertavam-nas apenas ao amanhecer, quase inconscientes. Todas choravam e falavam de forma incoerente. Depois de 19 dias, cheguei a um ponto em que queria acabar com a minha própria vida.”

Os ataques incluem invasões a residências, onde homens armados exigem que as raparigas sejam entregues, violando-as muitas vezes diante das suas famílias. Algumas vítimas ficam com ferimentos graves ou gravidezes indesejadas, aprofundando ainda mais o trauma. A devastação da guerra e o deslocamento de milhões de pessoas tornaram as mulheres e crianças ainda mais vulneráveis. Segundo a ONU, três em cada quatro raparigas em idade escolar estão fora da escola, aumentando os riscos de exploração e abuso quando estão em casa.

O facto de mulheres de todas as idades, incluindo crianças de apenas um ano, estarem a ser violadas por homens armados deveria chocar toda a gente e levar a uma resposta imediata. Milhões de mulheres e crianças no Sudão estão em risco de violação e de outras formas de violência sexual, que estão a ser usadas como tática de guerra. Isto é uma violação abominável ao direito internacional e claramente constitui crimes de guerra. Tem de parar. À medida em que o conflito no Sudão se arrasta, a comunidade internacional enfrenta desafios imensos para travar a violência e garantir apoio às vítimas.

O relatório da UNICEF expôs uma realidade brutal que não pode ser ignorada, reforçando a necessidade urgente de intervenção humanitária e responsabilização dos culpados. A situação no Sudão é um grito de alarme para o mundo, um apelo desesperado à ação que não pode continuar a ser ignorado. A violência sexual sistemática usada como arma de guerra, a destruição deliberada de comunidades e o genocídio silencioso contra populações vulneráveis são crimes contra a humanidade, e a inércia global faz de todos cúmplices. Cada dia que passa sem uma intervenção eficaz é mais um dia em que mulheres e crianças são violadas, mortas ou reduzidas a bens de troca num mercado de terror e impunidade. A falta de financiamento para a ajuda humanitária e os cortes na assistência internacional não são apenas um fracasso moral, mas também um sinal de que vidas africanas continuam a ser vistas como inferiores no xadrez político global.

A ONU, a União Africana e as grandes potências têm o dever e a responsabilidade de agir agora, de fornecer proteção real às vítimas e de garantir que os perpetradores sejam julgados. O silêncio do mundo não é neutralidade, é cumplicidade com o terror.

Referências:
● Rape and Sexual Slavery in Sudan’s Conflict | Human Rights Watc
● Sudão: mulheres na guerra e a guerra contra as mulheres. Artigo de Raga Makawi –
Instituto Humanitas Unisinos – IHU
● Sudan civil war: One-year-olds among those raped, UN says
● Civil War in Sudan | Global Conflict Tracker
● Sudan – Civil War, Dictatorship, Conflict | Britannica