“Fala português!” – o preconceito linguistico em Portugal

A imposição do português

Antes da chegada dos portugueses as ex-colônias experimentavam a liberdade de se comunicarem em suas línguas próprias. Umbundu, cokwe, changana e fula são exemplos de línguas que reinavam absolutas nesses territórios. Com o aumento do controle colonial, proibiuse o uso de diversos idiomas nativos como forma de repressão e assimilação cultural, o que no Brasil, associado ao extermínio, causou a extinção de cerca de 1.000 línguas.

A língua como resistência

No curto espaço de manifestação que tinham, as ex-colônias conseguiram expressar a sua história e cultura por meio de sotaques, e enriquecimento vocabular, o que no Brasil se fez com a adição de palavras de origem africana e indígena, além de incontáveis sotaques que variam entre as cinco regiões do país. Palavras como Moleque (menino), Cafuné (carinho na cabeça), Dengo (carinho) e Caçula (filho mais novo), são exemplos da herança africana que os brasileiros perpetuam orgulhosamente em seu vocabulário.

Em defesa da língua portuguesa 


Mas o que, ainda com todas as suas particularidades, parecia ser um ponto de convergência entre as nossas culturas, torna-se um pesadelo para os imigrantes que chegam à Portugal e que, ao pronunciarem as primeiras palavras, já sofrem com as primeiras correções. “Não sabe falar português!” E “Fala brasileiro!” são ataques que fazem parte do nosso cotidiano no país. Além da imigração, o consumo de conteúdos brasileiros, especialmente por crianças portuguesas, tem aproximado os nossos vocabulários e gerado debates entre os educadores. Mas um debate que parece saudável a primeira vista, muitas vezes se converte em correções arbitrárias no meio escolar e acadêmico que não levam em consideração a multiplicidade da língua e acabam por ser mais um instrumento da xenofobia, e discriminação.

Será que o sotaque internacional é assim tão nocivo?
 


Quando pensamos em todos os nove países que tem o português como língua oficial, é impossível apagar ou ignorar todos os sotaques, variações, culturas e histórias que permeiam esse idioma vivo, e tão rico que construimos, e continuamos construindo juntos. Porém, a quantidade de ataques que sofremos faz parecer que a nossa espontânea existência é vista como uma agressão aos proprietários da língua.
 
 

Mas se o diferente é visto como ameaça, porque é que a língua inglesa é cada vez mais acolhida e largamente utilizada em Portugal? Não é incomum presenciar um diálogo entre portugueses em que o uso de diversas palavras ou expressões inteiras em inglês é corriqueiro. E não para por aí. Menus, cursos, entrevistas e aulas de ioga, ou pilates ministradas exclusivamente em inglês são cada vez mais frequentes em território português, e não há relatos de ataques nessas ocasiões. 

Isso demonstra que, mais uma vez, a restrição ao uso de vocábulos e sotaques é usada como forma de instrumentalizar a xenofobia e o racismo. Além de violentar e impor uma hierarquia onde a língua portuguesa de variante europeia é superior, e a única que pode ser considerada correta.
 


 

“O não ouvir é a tendência a permanecer num lugar cômodo e confortável daquele que se intitula poder falar sobre os Outros, enquanto esses Outros permanecem silenciados”. – Djamila Ribeiro, em seu livro, O que é lugar de fala?. 


Referências
 

Inquérito às condições de vida, origens e trajetórias da população residente, INE – 2023.
 


 Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem do racismo, Gabriel Nascimento – 2019.
 
 

Relatório anual, CICDR – 2018.


Artigo escrito pela voluntária Andressa Gomes