Foto: Ibrahem Qasim (2015). Widespread destruction in the residential neighborhoods near mountain Attan following airstrikes. Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0. Imagem recortada para adaptação ao formato da publicação.
Morreram 400 mil pessoas desde o agravamento da guerra civil no Iémen em 2015. Grande parte são crianças com menos de 5 anos, vítimas do seu berço, porque as mães não têm como as alimentar. Em esforços para alcançar a paz, em 2022 foi conseguida pela ONU uma trégua de apenas dois meses; no entanto, os Houthis recusaram a sua renovação. Em julho desse ano, a guerra ganhou uma nova intensidade e, apenas no mês de setembro, a ONU estimou cerca de 504 mortos e perto de 2400 feridos. Na sequência de ataques a campos de refugiados e zonas costeiras, cerca de 130 mil pessoas tornaram-se deslocadas.
Um país, futuros diferentes
A profundamente fragmentada geopolítica iemenita contemporânea é um retrato de divergências políticas, religiosas e sociais, sendo também fruto de uma unificação apressada entre dois países com passados ocupacionais diferentes que resultaram em sentidos identitários incompatíveis.
O norte do Iémen, antiga República Árabe do Iémen, com a capital Saana, foi uma região integrante do Império Otomano até 1918, sendo posteriormente, até 1962, um imanato. Alinhada com o Ocidente e com as monarquias do Golfo, mantinha um caráter capitalista, embora tradicionalista, com uma forte estrutura tribal e religiosa, entre zaiditas xiitas e sunitas.
Por outro lado, o Iémen do Sul foi um protetorado britânico até à sua independência, em 1967, após uma insurgência nacionalista. Forte aliada da URSS, a República Popular Democrática do Iémen constituiu uma sociedade secularizada e extremamente progressista.
Contudo, a realidade sectária iemenita surge apenas no final do século XX com a proliferação do Islão político e a introdução de ideologias externas durante o governo central de Saleh, que procurava financiamento externo, particularmente saudita. Foram introduzidas escolas wahabitas e salafistas, o que gerou uma sensação de marginalização política e social nas comunidades zaiditas. No seguimento de uma perceção de assimilação forçada, nas décadas de 80 e 90 surgiram movimentos revivalistas zaidi como o Shabab al-Moumineen (juventude crente), associados principalmente à família Al-Houthi. Inicialmente, tinham propósitos educacionais e identitários. Contudo, as crescentes tensões e desconfiança entre o governo de Saleh e o novo movimento culminaram em diversos confrontos, terminando com a morte do líder Hussein Al-Houthi pelas forças governamentais em 2004, o que galvanizou e radicalizou o movimento atualmente conhecido como os Houthis.
A consolidação da influência do grupo aconteceu apenas anos mais tarde, em 2011, durante a Primavera Árabe, quando Saleh finalmente abdicou do poder em troca de imunidade, marcando o fim de uma governação de três décadas. A partir de 2014, o panorama nacional iemenita tornou-se o preâmbulo da segunda guerra civil que continua a marcar a atualidade.
Em 2014, os Houthis controlaram a capital e, em 2015, controlavam todo o acesso ao Mar Vermelho, incluindo o estreito de Bab el-Mandeb, uma das artérias do comércio mundial de petróleo. Desde esse momento, deflagraram no país conflitos entre o grupo (apoiados pelo Irão) e o Conselho de Liderança Presidencial (apoiado pela Arábia Saudita), numa guerra por procuração com o intuito de controlar o estreito e expandir áreas de influência no Médio Oriente.
Em desejados tempos de paz
O Iémen é palco de um dos cenários mundiais mais conflituosos e trágicos da atualidade.
Segundo levantamentos deste ano da ONU, cerca de 22 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária e cerca de 80% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Cerca de 14% da população está deslocada, sendo que 80% dos agregados familiares são compostos apenas por mães e filhos. De acordo com a UNICEF, 1 em cada 5 crianças sofre de desnutrição.
As consequências imediatas da guerra são extremamente alarmantes e conhecidas por todos. No entanto, as perspetivas futuras para um Iémen estável, ou que pelo menos reúna condições para o embrião de um desenvolvimento em tempos menos conturbados, estão longe de se tornar realidade.
Extremamente dependentes das condições geopolíticas e de ajuda externa, a economia do Iémen completa em 2026 o quinto ano consecutivo de recessão, e os recentes bloqueios realizados pelos Houthis ao tráfego marítimo no Mar Vermelho (principal fonte de receitas do país) apenas contribuem para a estagnação económica e industrial. Consequentemente, a economia urbana, bem como o poder de compra da população, está significativamente fragilizado. Em tempos de economia bélica, que perdura há quase uma década com ligeiras flutuações, os salários estatais encontram-se suspensos: desde 2016 que as áreas controladas pelos Houthis apresentam uma suspensão quase total e as áreas controladas pelo governo sofrem de pagamentos com atrasos crónicos de meses.
Face a estes constrangimentos, o crescimento da economia informal e do trabalho infantil tem sido exponencial. Há quem chegue a vender todos os seus bens online para garantir o essencial. Professores, médicos, advogados e muitos outros profissionais das mais diversas áreas encaram a sua profissão de forma secundária, uma vez que necessitam de realizar pequenos biscates para fazer face às despesas diárias. Também os padrões familiares tradicionais têm sofrido grandes alterações, uma vez que a mulher assume as despesas; no entanto, numa sociedade com grandes desigualdades de género, a vulnerabilidade destas e dos seus filhos aumenta significativamente.
A grande esperança do Iémen, como em todas as nações, são as gerações vindouras. Ainda assim, a educação encontra-se severamente fragmentada ou, em muitos casos, inexistente. A Rede Parlamentar Internacional pela Educação estima que cerca de 4,5 milhões de crianças estejam fora da escola, muitas vezes por integrarem o setor informal ou por falta de infraestruturas viáveis ao ensino, arrasadas pela guerra. Para agravar a situação, as divergências abismais no sistema educativo entre as zonas controladas pelos Houthis e pelo governo reforçam os entraves ao futuro mercado de trabalho dos jovens. Um ensino politizado e militarizado nas regiões do norte, sob o controlo dos Houthis, não é reconhecido pelas restantes regiões sob controlo governamental, comprometendo ainda mais as hipóteses de ingresso no ensino superior.
Atualmente, os planos de recuperação traçados enfrentam diversos obstáculos, apesar dos esforços contínuos de organizações internacionais. Intervenções de organizações humanitárias como a ONU lideram este tipo de projetos, através de apelos a ajuda humanitária em valores que rondam muitos milhões, parcerias com o Banco Mundial de modo a criar estratégias de recuperação económica e de fortalecimento institucional, criação de emprego temporário para devolver liquidez aos trabalhadores, e ainda a reconstrução de serviços básicos de água e saneamento. No entanto, todas estas medidas apenas ganham alguma solidez se a fragmentação política e monetária entre zonas com lideranças diferentes, o estrangulamento da circulação no Mar Vermelho e a escassez de financiamento internacional forem ativamente combatidas.
