Foto: Hindustan Times via Getty Images. BBC News
Revoltas no Sul da Ásia
Nos últimos dois anos, o Sul da Ásia tem assistido ao aumento de contestações por parte das suas juventudes. As manifestações de 2024 no Bangladesh, as de 2025 na Indonésia e, o epíteto de todas elas, as revoltas estudantis nepalesas em 2025 que levaram à destituição do primeiro-ministro. Todas elas por razões semelhantes: a dificuldade de inserção dos jovens no mercado de trabalho, as grandes desigualdades socioeconómicas e a corrupção que se perpetua nestes países. E, desta vez, foi a vez dos jovens indianos.
Protestos
A Praça Jantar Mantar, em Nova Deli, encheu-se de centenas de estudantes. Após anos de árdua preparação e vultosas dívidas contraídas para pagar tutores, os alunos realizam um dos exames mais competitivos e difíceis do mundo, o exame de admissão ao curso de medicina, simplesmente para o repetirem devido à fuga e venda das provas. Já conhecem a situação, não é novidade. De acordo com o Indian Express, entre 2002 e 2025, foram reportadas 45 fugas de exames e apenas duas levaram a condenações.
Mas, desta vez, no passado mês de junho, uniram-se em protestos, exigindo a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, e, após alguns dias de braço de ferro, cedeu e demitiu-se.
No entanto, os únicos males dos jovens indianos não são os exames, mas também o elevado desemprego jovem, causado pela incapacidade de absorção dos mercados indianos. E as grandes diferenças sociais que se perpetuam na Índia. E as constantes defecções políticas. E o estrangulamento de Modi à democracia.
Todas estas frustrações culminaram na criação de Abhijeet Dipke, fundador da plataforma Cockroach Janta Party (apoiantes das manifestações de junho). Apropriando-se do nome ofensivo “cockroach”, atribuído pelo presidente do Supremo Tribunal aos jovens desempregados, esta plataforma é um fórum onde jovens de toda a Índia podem contribuir para a discussão pública, manifestando as adversidades que enfrentam no seu país.
O Manifesto das “Baratas”
Uma “sátira” de um partido, é assim que se apresentam. Sem afiliações e inclinações políticas, partilham apenas um manifesto de cinco pontos fundamentais para a defesa da democracia indiana. Manifesto este que apresenta críticas às atribuições de cargos públicos como recompensas pós-reforma, à sub-representação feminina, às fraudes eleitorais e ainda às defecções partidárias e à concentração da comunicação social nas mãos de uma fração ínfima dos milionários indianos.
Desemprego jovem na Índia
Apesar do significativo crescimento económico indiano na última década e da quase duplicação do PIB nominal desde a entrada de Modi, as desigualdades socioeconómicas perduram. A economia informal, a imobilidade no sistema de castas indiano, a desigualdade de género e o grande desemprego jovem, uma das fortes causas da emigração, continuam a estar presentes na vida dos indianos.
O problema não reside apenas na falta de emprego, mas na transformação de diplomas de estudantes qualificados em trabalho. O aumento da escolarização indiana não se tem traduzido em maior empregabilidade, ou seja, a grande vantagem demográfica indiana não se tem traduzido numa vantagem económica e de desenvolvimento social.
Jovens candidatos a emprego durante uma ação de recrutamento do Exército indiano na Caxemira.
Foto: NurPhoto via Getty Images. BBC News
Segundo dados citados pela BBC do State of Working India 2026, da Azim Premji University, 40% dos licenciados indianos com idade igual ou inferior aos 25 anos estão desempregados. Na Índia, residem cerca de 367 milhões de cidadãos entre os 15 e os 29 anos. Consequentemente, a busca por oportunidades para estas gerações ultrapassa fronteiras. A inexistência de trabalhos compatíveis com as suas qualificações, assim como a falta de emprego, obriga muitos indianos à migração laboral. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de 28% da emigração deveu-se a motivos laborais.
Mais do que uma revolta estudantil, os protestos que marcaram o mês de junho, foram mais longe do que os exames fraudulentos. Representam o descontentamento geral de toda uma nova geração que apenas vê incertezas no seu futuro na Índia. Desde modo, o Cockroach Janta Party, não sendo um órgão político, poderá tornar-se um catalisador e um elemento fundamental na promoção da discussão pública indiana.
Atualmente, já contam com cerca de 25 milhões de seguidores nas redes sociais.
Artigo escrito por Beatriz Xavier, estudante de Comunicação.
Referências
https://www.ilo.org/sites/default/files/2024-08/India%20Employment%20-%20web_8%20April.pdf
https://www.bbc.com/news/articles/c17841zez8wo
https://www.thecockroachjantaparty.org.in/#manifesto
