Maria Teresa Horta: submissa a si mesma

Uma vida arrebatada pela poesia, pelo inconformismo e pela liberdade 

Maria Teresa Horta. Foto publicada na página de facebook da D. Quixote.
Foto edições D. Quixote
“És um oprimido neste país, ó amor.”
Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta, nascida em Lisboa, no dia 20 de Maio de 1937,  foi uma escritora, poetisa e jornalista portuguesa, considerada uma das mais importantes vozes da literatura contemporânea. É, também, lembrada como uma das “três Marias”, autoras das “Novas Cartas Portuguesas”, embora a sua  voz individual se reflita e escute muito além deste livro, tendo inclusive sido considerada uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo pela Forbes. Não que esse título – ou outros que recebeu – seja  suficiente para tudo aquilo que representa, para tudo o que de valioso e importante nos deixou. Por convicção recusou alguns, nunca deixando o silêncio ou a resignação ocupar espaço. Aliás, pouco foi o reconhecimento que teve, na verdade, e o mesmo veio tarde, como conta a sua biógrafa, Patrícia Reis, no livro lançado em 2024. Feminista convicta, defendeu a liberdade, o corpo feminino, o erotismo e os direitos das mulheres na sociedade portuguesa. Foi a primeira mulher a exercer funções de diretora de um  cineclube – espaços  de grande resistência política – e uma das primeiras a trabalhar em redações de jornais em Portugal ainda na década de 60. Dirigiu, também, a revista “Mulheres”, onde entrevistou figuras de destaque da política, cultura e literatura. 

A influência feminina na vida e obra de Maria Teresa Horta

,Duas mulheres marcaram profundamente a vida e a obra de Maria Teresa Horta: a mãe, Carlota, e a avó paterna, Camila.

Carlota, apesar de ter abandonado a filha para viver um caso extraconjugal, paradoxalmente, despertou em Maria Teresa a chama do feminismo, mostrando-lhe que a liberdade feminina não era uma mera utopia, ainda que pudesse ser considerada controversa à época. Entre o fascínio, a ausência e a dor do abandono e da indiferença, sempre esteve presente um amor incondicional e protetor por parte da escritora relativamente à mãe – figura sempre de destaque ao longo da sua obra: ora representada na crua realidade, ora fantasiada numa relação próxima de mãe e filha que talvez nunca existiu. 

Camila foi a primeira rapariga a frequentar o liceu em Portugal e transmitiu os seus ideais feministas à neta, levando-a a ouvir as sufragistas e explicando-lhe a importância da luta pelos direitos das mulheres. A morte de Camila, ocorrida poucos dias após o abandono da mãe, foi um golpe duro na sua infância. Desde aí Maria Teresa disse nunca mais ter chorado Aprendi a não chorar. Isso torna as meninas pequeninas vulneráveis. Os dois esteios da minha vida, embora de maneiras diferentes, desaparecem no espaço de um mês (in Expresso, 2017). Esta segunda perda, tão próxima da primeira, causou um trauma ainda maior em Maria Teresa, que se viu confrontada com a ausência de duas figuras femininas importantes na sua vida e que influenciariam a escritora que se tornaria – indissociável da própria pessoa, como mais tarde admitiria.

             Eu sou sobretudo a minha poesia (in Expresso, 2017)

A literatura como ponte para a mudança social 

The economist
RTP ensina

A sua estreia na literatura ocorreu em 1960, com a publicação de “Espelho inicial”. Em 1971 publicou “Minha Senhora de Mim” –  este livro de poesia desafiava o papel tradicional da mulher, colocando-a como sujeito ativo nas relações, do seu corpo e sexualidade. Foi censurado e apreendido pela PIDE. Alguns meses depois,  foi violentamente agredida na rua, num ataque fascista, muito provavelmente,  motivado pela publicação do livro. A própria Maria Teresa admite que se não fosse essa obra provavelmente não existiram as “Novas Cartas Portuguesas” que escreveu na sua casa com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. Publicada em 1972, a obra, inspirada nas cartas de amor de uma jovem freira de Beja a um oficial francês, combinava diários, poesia, ensaios e ficção e emergiu como um manifesto político contra a ideologia dominante do Estado Novo, desafiando a censura e a opressão vigentes em Portugal. A “ousadia” do livro, considerado “pornográfico e atentatório da moral pública”, levou as três autoras a enfrentarem um processo judicial. Durante o interrogatório da Polícia Judiciária o inspetor dos “costumes” pressionou Maria Teresa para admitir ser a autora das “partes piores” do livro. No entanto, nunca nenhuma revelou a autoria individual dos textos.

O facto de não termos medo foi uma das coisas que mais os enfureceu. Eles pensavam que, por sermos mulheres, éramos seres frágeis e que nos iam atemorizar. Mas não conseguiram (in Esquerda.net, 2020).

O julgamento decorreu precisamente aquando da primeira conferência internacional de mulheres, em Boston, de 3 a 5 de junho de 1973. O livro tornou-se centro das atenções, sendo adotado como a primeira causa feminista a nível mundial, levando a um aumento exponencial da solidariedade internacional. A mobilização internacional forçou o juiz a ouvir várias testemunhas e adiar a sentença, acabando mesmo por ser absolver as autoras no dia 7 de maio de 1974 e as Novas Cartas Portuguesas elevadas a categoria de obra de arte.

Publicou ainda obras como “Educação sentimental”, “As mulheres de Abril”, “Rosa sangrenta”, “Inquietude”, “Poemas para Leonor” e “Paixão”. Na ficção, destacam-se os romances “Ema”, “A Paixão Segundo Constança H.”, “As Luzes de Leonor”, e o volume de contos “Meninas”. A sua última obra é uma ode ao amor incessante que nutriu uma vida inteira pelo marido, Luís, falecido em 2019.

Pouco antes da sua morte, voltou a fazer história ao se tornar a primeira mulher a receber o  Prémio Rodrigues Sampaio, concedido pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, em reconhecimento à sua notável trajetória e contribuições para a literatura, o jornalismo e a luta pela liberdade e igualdade de género em Portugal. 

Embora não mais presente no plano físico, o seu legado permanece vivo enquanto a sua obra for lida e as suas palavras ecoarem nos movimentos de resistência e revolução modernos.

Sugestão literária: A Desobediente – Biografia de Maria Teresa Horta de Patrícia Reis

Fontes
Margato, C.. (2017, 5 de agosto). Maria Teresa Horta: “A paixão pode magoar, mas é tudo o que há de mais maravilhoso”. Expresso. 
Carneiro, Mariana (2020) Escrever ‘Novas Cartas Portuguesas’ foi uma das coisas mais importantes da minha vida. Esquerda.net. 
Moreira Santos, I. (2024). A última das “três Marias”. Morreu a escritora Maria Teresa Horta. RTP.
RTP Ensina. (s.d.). Maria Teresa Horta e a aventura das Novas Cartas Portuguesas. RTP.
Ferreira, M., Santos, A. M., & Lusa, A. (2024). Morreu a escritora e poetisa Maria Teresa Horta, aos 87 anos. Observador.
Ruela, R. (2024). Maria Teresa Horta: A história da desobediente militante e desassossegada contadora de histórias. Visão.