Mulher, Vida, Liberdade: como o movimento feminista curdo faz um ode à natureza, participação política e justiça social

Neste dia Internacional da Mulher, destacamos as mulheres do Curdistão.

O Curdistão fica a cerca de 4684 km de Portugal e estende-se por uma área de 40,643 km2, passando por 4 regiões: sudeste da Turquia, norte do Iraque, noroeste do Irão e norte da Síria.

A paisagem do Curdistão é delineada por montanhas verdes, pintadas com neve, rios extensos e vales sem fim.
A sua geografia fragmentada, vincada por um contexto político de décadas, faz com que o povo curdo nasça na sua terra, sem ser considerado dela. São 40 milhões de pessoas, a fazerem parte do “maior grupo apátrida do mundo” – se fosse considerado um estado independente, a sua população seria maior do que a canadense.

O desejo do povo curdo ter um estado independente é instrumentalizado para justificar a opressão diária, assimilação cultural e negação da sua língua a que é sujeito – estratégias aplicadas através de leis discriminatórias.

Dado este leve contexto de fragmentação identitária e geográfica, destacamos o papel da mulher curda na sociedade, a partir dos anos 70.

As mulheres curdas, sujeitas a tortura e opressão noutra esfera, chegam a ser presas por partilharem música curda, por serem artistas, por ensinarem a língua curda, por defenderem os direitos cultural curdos.

Jineology – a ciência das mulheres

As mulheres (jins), apesar da opressão de género e étnica a que estão sujeitas, são verdadeiras revolucionárias na região curda. Muitas delas têm um papel de liderança ou muito ativo pela luta democrática – ativistas, membros do parlamento e fazem advocacia pela igualdade de género. A base ideológica do seu movimento é a jineologia, filosofia que significa “ciência das mulheres”, proposta em 2009 pelo preso político Abdullah Öcalan, líder do PKK – trazendo a lente e experiências das mulheres para a mudança dos paradigmas da existência e funcionamento da sociedade.

A jineologia também pode ser traduzida pel’“a ciência da co-existência” – só através da mesma poderá ocorrer a libertação de sistemas dominados por homens e as correspondentes estruturas de poder. Uma visão abrangente, que reforça a interligação da ciência aos problemas sociais, com um olhar sobre a história, essência, conhecimento e papel das mulheres na sociedade, ligando-os à vida e à natureza.

Uma das vertentes mais conhecidas da mulher curda é o grupo armado composto por mulheres, Women’s Protection Units (YPJ), pertencentes à região do Curdistão na Síria. Este grupo sempre teve um papel ativo com presença na linha da frente militar contra o Estado Islâmico, que foi derrotado pelo YPJ na cidade curda de Kobane em 2014. 40% das mulheres curdas são militares.

Não só têm um papel ativo nas linhas da frente militares, como na política. O Governo Regional do Curdistão é composto por mais mulheres (30%) do que o governo dos EUA. São consideradas um elemento natural da identidade curda desde várias gerações passadas.

Outras ações das mulheres curdas vão desde:

  • Criação de campos de refugiados auto-geridos

  • Fundação de organizações

  • Fundação de iniciativas para apoiar outras mulheres e homens que quisessem aceder a serviços do Estado

  • Educar outras mulheres formalmente e informalmente

  • Perspetiva anti-fascista, anti-capitalista e anti-autocrática

  • Promoção da igualdade de género

  • Proteção de minorias étnicas

  • Criação de iniciativas sócio-ecológicas

  • Tornaram o casamento infantil ilegal para a proteção de meninas

  • Criação de um sistema para se reportar e penalizar abuso por parte de homens (pertencentes à família ou não)

  • Garantia de que metade dos fundos governamentais sejam aplicados em projetos de mulheres

  • Ocupação de posições de autoridade no governo, aumentando a sua agência política


Pakhshan Azizi, ativista socio-política curda, escreveu, nas suas cartas a partir da prisão, que “As mulheres foram sistematicamente excluídas da filosofia, da ciência e do conhecimento e, em certas sociedades, foram deliberadamente distanciadas do processo educativo. (…) Na modernidade capitalista, que conduz a crises ecológicas, desastres humanos, ruptura com a verdade e destruição da sociedade, a jineologia procura prevenir estas tragédias restaurando a essência social da ciência. A revolução das mulheres ocorre através do paradigma da modernidade democrática. Na sua essência, pode também ser entendido como a relação entre verdade, poder e conhecimento.” 

 

Defendeu ainda que “o século XXI é, de facto, o século da revolução feminina, e alcançar tal transformação requer o desenvolvimento da “ciência feminina” (jineologia) para traçar um rumo para os movimentos femininos em relação à história, revolução e política. (…) Esta revolução, fundada em valores democráticos e ecológicos e que promove a igualdade e a liberdade para homens e mulheres, exige um processo sustentado e de longo prazo para provocar uma mudança social genuína.”

 

Ligação à natureza
Khuncha Omer é um exemplo vivo de resiliência e ligação à (sua) terra, uma mulher curda com mais de 60 anos que, num espaço de 5 anos, está a reviver, aos poucos, a sua vila abandonada há 38 anos (no Curdistão iraquiano).
Planta árvores e trata do seu gado diariamente. Aquilo que é fruto do seu trabalho, é distribuído na comunidade e entre familiares – desta forma, cuida da sua terra e relembra as memórias da sua infância passadas na vila, eternizando a sua identidade e resistência.

Woman, life, freedom –  Jin, jiyan, azadî 


Este slogan resume a participação política, militar e social da mulher curda – cujo papel ativo é fundamental para o desenvolvimento e defesa dos seus direitos.

Isabel Käser (no seu livro The Kurdish Women’s Freedom Movement: Gender, Body Politics and Militant Femininities), e Dilar Dirik (no seu livro The Kurdish Women’s Movement

History, Theory, Practice),  representam a mulher curda longe dos olhares estereotipados orientalistas ou fetichizados sobre a visão da “heróica mulher militar”, aprofundando a sua existência e analisando o seu ativismo ao longo de várias frentes: social, política, ecológica, geográfica e cultural. Este modo de vida é um convite, para que outras sociedades e mulheres no mundo lidem com a vida com esta perspetiva.

“Eu sou ela. 

Ela sou eu. 

Mas eu sou apenas uma gota no oceano. 

Tu és o oceano. 

O nosso fluxo é inevitável. 

Estamos a descoberto.”
Pakhshan Azizi,

trabalhadora humanitária e ativista da sociedade civil curda condenada à morte em 2024

 

Fontes:

  1. https://www.gcsp.ch/global-insights/how-kurdish-women-are-transforming-and-democratising-middle-east 

  2. https://www.outsideonline.com/adventure-travel/destinations/asia/my-crazy-kurdistan-road-trip/ 

  3. https://www.amnesty.org.uk/urgent-actions/kurdish-woman-activist-sentenced-death 

  4. https://medyanews.net/pakhshan-azizis-second-prison-letter-frames-jin-jiyan-azadi-as-revolutionary-discourse-2/ 

  5. https://thedefensepost.com/2019/10/21/syria-turkey-us-ilham-ahmed-sdf/ 

  6. https://medyanews.net/pakhshan-azizis-second-prison-letter-frames-jin-jiyan-azadi-as-revolutionary-discourse-2/ 

  7. https://infowelat.com/pakshan-azizis-prison-letter-concealment-and-uncealment-of-truth.html 

  8. https://www.gla.ac.uk/media/Media_882898_smxx.pdf 

  9. https://www.voanews.com/a/kurdish-woman-works-to-revive-abandoned-hometown-/7795931.html 

  10. https://www.aljazeera.com/opinions/2014/10/29/western-fascination-with-badass-kurdish-women/ 

  11. https://thekurdishproject.org/history-and-culture/kurdish-women/

  12. https://medyanews.net/jineology-a-women-centred-science-redefining-knowledge-and-life/  

  13. https://www.plutobooks.com/9781786807397/the-kurdish-womens-movement/ 

  14. https://www.kurdishstudies.pl/?en_woman-life-freedom,248