Fonte: Feito com recurso a IA Nano Banana
Será que conheces estes continentes pela sua própria história, ou apenas pelo olhar de quem as descreveu?
O filósofo V.Y. Mudimbe desafia-nos a compreender que o que conhecemos sobre estas regiões faz parte de uma estrutura colonial que organizou e transformou realidades diversas em constructos puramente europeus. A visão tradicional que nos foi ensinada é, na verdade, um espelho das necessidades de domínio do Ocidente, criando uma distinção absoluta entre o “nós” e o “eles”.
A identidade europeia moderna encontra n’Os Lusíadas um dos alicerces de uma hierarquia epistémica. Conforme sustenta Oliveira (2022), a obra de Camões inaugura a transição do modelo cristão ocidental de uma perspetiva regional para um estatuto de ‘universalidade’ normativa. Ao projetar o padrão europeu como referência civilizacional, a epopeia institui uma cartografia de poder onde a Europa se arroga o papel de centro e medida de todas as coisas, relegando as alteridades africanas e asiáticas à periferia da história.
A obra participa ativamente na consolidação de formas precoces de ‘Orientalismo’ em Portugal, ao elevar o modelo cristão ocidental a norma universal, gerando categorias de subalternidade para os povos não-europeus. O “Mouro” é fixado na figura da perfídia e da traição para legitimar o domínio sobre o inimigo religioso; todavia, o poema preserva uma ambivalência rara ao permitir que vozes locais denunciem os portugueses como “cristãos sanguinolentos” movidos pelo saque (Oliveira, 2022; Lourenço, 2024). O “Gentio” Indiano é filtrado por um exotismo que o descreve como supersticioso e carente de civilização. Apesar da vivência de Camões em Goa, o seu etnocentrismo operou uma redução da complexidade indiana, culminando na ficção de uma “profecia malabar”, sugerindo que os indianos aguardavam a chegada dos portugueses como um bem desejado. (Feytor Pinto & Singh, 2022) Já o Africano é confinado a campos semânticos de “bestialidade” e “bruteza”, embora o poeta não silencie a violência gratuita exercida pelos navegadores em episódios como o da Baía de Santa Helena (Brito, 2021).
Infografia comparativa realizada com base no artigo: The African Savage, the False Moor, and the Exotic Gentile: Images of Orientals in The Lusiads and in the Present de João Pedro Marques Morgado Ferreira de Oliveira.
Não obstante, Camões não deve ser visto apenas como um “artefacto patriótico inócuo”, mas como um “vir optimus”, um homem perito tanto em louvar a virtude como em vituperar o vício (Brito, 2021). O poema também denuncia a cobiça, a corrupção pelo dinheiro e a falta de prémio para o mérito (Brito, 2021). No entanto, apesar de ter vivido em Goa, o etnocentrismo de Camões impediu-o de ver a complexidade real do “Outro”, reduzindo civilizações milenares a estereótipos (Feytor Pinto & Singh, 2022). Nesta linha, Vasco da Gama não é um herói imaculado; é retratado com falhas humanas, sendo por vezes inculto, imprudente e até forçado a negociar a sua liberdade em troca de mercadoria, demonstrando que a glória da nação reside na superação das fraquezas através da arte e da experiência.
Enquanto a narrativa colonial fixa o continente africano num estado de “natureza selvagem”, a arqueologia revela uma realidade de sofisticação intelectual profunda. O Osso de Ishango, descoberto na atual República Democrática do Congo e datado de há cerca de 20.000 anos, é um dos registos matemáticos mais antigos da humanidade.
Este artefacto, com as suas incisões organizadas em grupos que têm sido interpretadas por alguns investigadores como indícios de raciocínio aritmético estruturado, embora o seu significado exato permaneça objeto de debate académico. No entanto esta descoberta prova que o pensamento lógico e o domínio do cálculo não foram levados para África pelas caravelas — eles já lá estavam, estruturando sociedades muito antes da Europa se organizar como a conhecemos.
A ciência moderna não resulta de um “milagre grego” isolado, mas de um conjunto de contributos de várias civilizações historicamente marginalizadas por narrativas eurocêntricas. Na matemática, evidências africanas antigas como o Osso de Ishango, bem como o desenvolvimento independente do zero e do sistema decimal na Índia e entre os Maias, e o domínio babilónico da álgebra e do teorema atribuído a Pitágoras, antecedem largamente a tradição europeia. Na astronomia, ideias heliocêntricas surgiram em contextos indianos e maias, enquanto astrónomos islâmicos forneceram a base geométrica utilizada por Copérnico, e a China preservou registos astronómicos contínuos ainda relevantes hoje.
Na física e na ótica, pensadores chineses anteciparam princípios fundamentais do movimento, e Alhazen estabeleceu o método experimental e as bases da ótica moderna. No campo tecnológico, invenções chinesas e os avanços químicos das civilizações americanas, como a vulcanização da borracha e a metalurgia da platina, foram decisivos para o mundo moderno. Reconhecer estas trajetórias permite descolonizar a história da ciência e compreendê-la como o resultado de múltiplos fluxos de conhecimento convergentes, e não de uma única origem cultural.
Para compreendermos a filosofia africana, é essencial conhecer o conceito de Muntu (ou Muñtu). Este termo fundamental das línguas bantu ultrapassa a definição literal de “pessoa” ou “ser humano”, transportando conceitos profundos de ancestralidade e interconexão. A negação da humanidade do “Outro” n’Os Lusíadas encontra o seu contraponto mais profundo na filosofia banto. Enquanto a narrativa épica reduz o africano a uma figura de “bruteza”, a tradição filosófica do Muntu revela uma visão de mundo onde o ser humano não é um átomo isolado, mas parte de um fluxo vital contínuo. Ao contrário do “Penso, logo existo” europeu, o conceito de Ubuntu (em várias tradições africanas) estabelece que “Eu sou porque nós somos”, definindo a humanidade através da relação com a comunidade e com o cosmos.
A descolonização política do século XX não eliminou as estruturas profundas do colonialismo. Muitos povos permanecem hoje num estado de “independentes, mas não livres”, habitando o que Filipe Vidal (2023) define como uma “in-dependência” — o estado de estar “dentro da dependência” ou sob a dependência de outrem. O autor defende que os africanos estão atualmente “independentes, mas não livres”. Enquanto a independência é vista como um estágio de “conforto” que mantém as estruturas coloniais, a verdadeira liberdade é designada pelo termo “folo”.
Vidal argumenta que, apesar da independência formal, os pilares da vida quotidiana continuam a ser estrangeiros: “o nome é deles, a forma de casar é deles, a forma de morrer é deles e as religiões são deles”. O seu próprio nome, “Filipe Artur Vidal”, é citado como um exemplo de “nome colonial” herdado deste processo.
A história colonial tentou separar-nos em “caixas”: o africano selvagem, o mouro infiel, o indiano exótico… Mas a verdade é que o Oceano Índico foi um centro dinâmico de conhecimento: árabes, indianos e africanos trocavam ciência, arte e mercadoria muito antes da chegada da primeira caravela. Descolonizar o olhar é reconhecer que o mundo já era global e sofisticado antes do imperialismo para além de ser uma ferramenta urgente de justiça social e reparação histórica. Significa reconhecer que a África e o Oriente são berços de humanidade e civilização com trajetórias independentes (Diop, 1974) e não apenas acessórios da história europeia.
Diversos estudos exploram como o sistema de ensino português mantém um “profundo silêncio” sobre a visão do “Outro” n’ Os Lusíadas, focando-se apenas no heroísmo luso (Feytor Pinto & Singh, 2022), ignorando as passagens que confrontam as ideologias imperialistas (Feytor Pinto & Singh, 2022; Oliveira, 2022). Confrontar estas sombras é essencial para transformar o poema num ponto de partida para uma discussão contemporânea sobre o colonialismo (Lourenço, 2024).
Referências Bibliográficas:
Brito, M. B. M. (2021). A política das Letras na obra de Luís de Camões. Nau Literária: crítica e teoria da literatura em língua portuguesa, 17(2), 65–93..
Feytor Pinto, P., & Singh, S. K. (2022). Uma leitura intercultural d’Os Lusíadas: o episódio da Chegada à Índia. Plano Nacional de Leitura 2027, Edição 2, Artigos..
Lourenço, F. (2024). Camões, Poeta Internacional. Faculdade de Letras e Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra..
Oliveira, J. P. M. M. F. (2022). The African savage, the false Moor, and the exotic gentile: Images of Orientals in The Lusiads and in the present. Citado em O Império da Imaginação..
Teresi, D. (2008). Descobertas perdidas: as raízes antigas da ciência moderna, dos babilônios aos maias (R. Eichenberg, Trad.). Companhia das Letras..
