PKK declara cessar-fogo após quatro décadas de conflito com a Turquia

Foto: Bektas/Reuters/FILE

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) anunciou esta sexta-feira um cessar-fogo unilateral, marcando uma reviravolta num conflito de 40 anos com a Turquia que já causou mais de 40 mil mortes. A decisão, divulgada por meio de canais de media curdos e confirmada por veículos internacionais como RTP, CNN, BBC e Al Jazeera, surge após pressões internacionais e um apelo inédito do seu líder histórico, Abdullah Öcalan, preso desde 1999 na Turquia e condenado a prisão perpétua por traição. Em comunicado, o PKK afirmou que a medida visa “criar uma oportunidade para resolver a questão curda através do diálogo e não das armas”. A organização destacou ainda que o cessar-fogo está condicionado à suspensão das operações militares turcas no sudeste do país e no norte do Iraque, áreas-chave de atuação do grupo. A ala militar do PKK, People’s Defence Centre (HSM), reafirmou que a decisão de cessar-fogo, aplica-se a todas as suas unidades, incluindo estruturas autónomas e forças especiais, procurando evitar ações isoladas que possam prejudicar o processo de paz visto como parte de uma estratégia política de longo prazo, não apenas militar.

O conflito entre o PKK e o Estado turco eclodiu em 1984, com a luta pela autonomia curda e pelos direitos culturais, com várias tentativas de paz fracassadas ao longo dos anos. A propósito do seu partido ser considerado terrorista pela Turquia e outros países, incluindo os EUA, Öcalan escreveu num dos seus livros:

como um movimento político que pede reconhecimento cultural, democratização de políticas e inclusão social pode ser considerado como um partido terrorista? Terrorismo é exterminar mulheres e crianças, terrorismo é impedir que um povo possa falar a sua língua nativa.

O apelo de Öcalan e a reação turca

A interrupção do combate, divulgada pela Firat Agency News, cita diretamente uma mensagem de Öcalan, cuja influência no grupo permanece central, ainda que preso há décadas e com pouco contacto com o exterior. “Estou a fazer um apelo para o abandono das armas e assumo a responsabilidade histórica deste apelo. Todos os grupos devem depor as armas e o PKK deve dissolver-se”, declarou o líder. O comunicado do PKK também exige a libertação de Öcalan para que “lidere as negociações sem impedimentos”.

 

A resposta oficial turca foi dada num discurso durante o jantar do primeiro dia do Ramadão, Erdoğan advertiu que a Turquia “manterá o nosso punho de ferro pronto caso a mão que estendemos seja deixada no ar ou mordida”. Paralelamente, fontes do governo indicam que Ancara avalia a viabilidade do diálogo, aproveitando o momento para angariar apoio do partido pró-curdo DEM — terceira força no parlamento — com o objetivo de emendar a constituição e permitir que Erdoğan alcance um terceiro mandato em 2028. O representante do partido  referiu que nas próximas semanas terão início várias reuniões técnicas para pôr em prática o cessar-fogo, que inicialmente terá 12 semanas. Devlet Bahçeli, líder do Partido de Ação Nacionalista (MHP) e aliado de Erdoğan, propôs libertar Öcalan caso o PKK renuncie à violência.”Erdoğan está a equilibrar-se entre o nacionalismo de Bahçeli e a realpolitik. O cessar-fogo pode ser uma oportunidade para consolidar o seu legado como pacificador, mas qualquer concessão aos curdos arrisca alienar a sua base conservadora”, refere Sinan Ulgen, diretor do think tank EDAM em Istambul.

Implicações regionais e internacionais

Na Síria, as Forças Democráticas Sírias (SDF), aliadas dos EUA e ligadas ao PKK, declararam que o cessar-fogo “não se aplica” às suas operações contra remanescentes do Estado Islâmico. A ressalva reflete o receio de que a Turquia, que classifica as SDF como extensão do PKK, intensifique ataques ao nordeste sírio caso o processo de paz avance.

No Iraque, onde o PKK mantém bases nas montanhas de Qandil, a trégua pode efetivamente reduzir tensões, mas a desconfiança mantém-se. “Já vimos isto antes: cessar-fogo que vira pó. Desta vez, porém, há pressão internacional e fadiga de guerra em ambos os lados”, Dlovan Barwari, analista do Grupo de Crise Internacional em Erbil.

Enquanto a União Europeia saudou o anúncio como “um passo corajoso em direção à paz”, os EUA evitaram comentários diretos, limitando-se a reiterar apoio à “estabilidade regional”. Já as comunidades curdas expressaram alguma moderação. “Queremos viver em paz, mas já vimos promessas falharem antes”, disse um ativista em Diyarbakir, no sudeste da Turquia.

O que se segue?

O maior desafio é, talvez, superar o legado sucessivo de fracassos. Em 2013, um cessar-fogo mediado por Öcalan desmoronou após dois anos, com acusações mútuas de violações. Desta vez, o PKK insiste que a paz exige “garantias concretas”, incluindo direitos culturais e políticos para a minoria curda (18% da população turca) — reivindicação rejeitada por décadas, associando-a a “separatismo”.

Para Barcin Yinanc, colunista do jornal Duvar, “a chave está na capacidade de Erdoğan de vender um acordo como vitória nacional, não como capitulação”, comprometendo-se com gestos simbólicos, como descriminalizar o uso da língua curda em espaços públicos ou libertar presos políticos.

O futuro do cessar-fogo depende de três caminhos possíveis: numa perspetiva mais otimista, a redução de operações turcas e gestos simbólicos, como a libertação de presos políticos e o reconhecimento cultural curdo, com diálogos mediados pelo Qatar ou pelo Iraque; já numa visão negativa, um ataque militar ou a ação de grupos dissidentes do PKK, afigura-se o suficiente para romper a trégua, reacendendo o ciclo de violência, dada a postura do HSM de reagir rapidamente a “provocações”. Por fim, no cenário de estagnação, a persistência de operações turcas de baixa intensidade e a ausência de avanços políticos podem transformar o cessar-fogo numa paz superficial, marcada por tensões e vulnerável a ruturas ao mínimo desacordo. Enquanto isso, aguardamos se este será o fim de uma das guerras mais longas do século XXI ou apenas mais uma pausa temporária, perpetuando o sofrimento da população curda, privando-a do direito à cidadania e dos seus direitos fundamentais e culturais.

Fontes:

Al Jazeera. (2025, March 1). PKK declares ceasefire in 40-year conflict with Türkiye: Kurdish media.

Lau, C., Kourdi, E., & Lilieholm, L. (2025, 1 de março). Cessar-Fogo Curdo: Fim da Insurgência de 50 Anos na Turquia?. CNN.

Mercer, D. (2025, 1 de março). Kurdish group PKK declares ceasefire with Turkey. BBC News.

Wilks, A. (2025, 1 de março). Kurdish PKK militants declare a ceasefire in 40-year insurgency in Turkey. Associated Press (AP) News.